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Situações de sobrevivência: mitos x realidade

novembro 18, 2021
Tempo de leitura 11 min
Descubra a diferença entre mitos x situações de sobrevivência reais neste texto.

Se há algo que povoa o imaginário das pessoas é a ideia do homem sobrevivendo na mata, dos recursos da terra, domando a natureza e sobrepujando os desafios do meio ambiente com o mínimo de equipamentos para impulsionar suas aventuras.

Eu arrisco dizer que este cenário pode até mesmo remeter a um longo período de nossa existência neste planeta. Porém, a distância tecnológica e cronológica acaba nos levando a criar fantasias e conceitos que não se aplicavam para os povos primitivos de antes, muito menos para os humanos contemporâneos.

Graças às centenas de filmes e programas de TV do gênero já produzidos, muito se tem ouvido falar hoje em dia sobre o assunto e apesar de haver, notadamente, um número considerável de boas informações lá fora, há também muita fantasia e desinformação. Difundida erroneamente por aqueles que, supostamente, são “peritos” no assunto, mas que acabam levando outros a se exporem à riscos desnecessários. E correr riscos desnecessários na natureza selvagem pode ser fatal. Sem exageros. Já rolou.

Registro arqueológico

Para entendermos um pouco melhor a questão do homem na natureza selvagem, basta olhar para o que registros arqueológicos nos revelam.

Em 1991, historiadores descobriram ao norte da Itália, uma múmia congelada e preservada por mais de cinco mil anos de idade, chamada pelos cientistas de Ötzi, “O Homem de Gelo“. Mas o que nos interessa é que junto a ela foi encontrado boa parte de seu equipamento primitivo. Ötzi carregava uma série de itens fundamentais para sua sobrevivência cujos equivalentes modernos podem ser encontrados hoje em dia com qualquer montanhista. Isso significa que a mesma lógica utilizada pelo nosso amigo do gelo há 5300 anos continua a ser aplicada até hoje.

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Reconstrução de Ötzi com seus equipamentos; incluindo pequenas cestas, machado, arco e aljava contendo flechas e ferramentas. Fonte: Wikimedia Commons

Vale destacar que ainda naquela época, os objetos utilizados prezavam pela multifuncionalidade. O cinto que mantinha a perneira de Ötzi erguida, cobrindo suas pernas, também servia como kit de sobrevivência. Ele continha itens menores indispensáveis como lâminas, iscas de fogo e, pasmem, remédios.

É certo que para cada objeto levado por Ötzi, há um correspondente atual que fará a mesma coisa, com um grau de desempenho melhor e mais rápido que seus equivalentes pré-históricos, poupando tempo e calorias para o ser humano moderno. O que não muda é que, tanto ontem como hoje, seguimos precisando de abrigo, fogo, formas de nos alimentar e nos hidratar. O homem apenas aperfeiçoou a forma como ele atendia suas necessidades. As necessidades não mudaram.


Largado no mato

Durante minha juventude, me lembro de sonhar viver da mata sozinho. Por necessidade ou vontade mesmo, me imaginava vivendo na floresta como um de nossos ancestrais. Mas ao longo de minha jornada, percebi que este desejo de viver sozinho, isolado, completamente autossuficiente é uma fantasia que não traduz a realidade humana ao longo da história.

A ideia contemporânea de sobrevivência na selva ou em qualquer ambiente natural hostil é apenas por um período limitado de tempo. Estatísticas americanas sobre situações de sobrevivência mostram que, em geral, estamos falando de um cenário de 72 horas ou 3 dias, dentro dos quais o sobrevivente sai vivo ou não. Claro que há situações em que este período pode se estender por bem mais tempo, mas tais casos ocorrem com bem menos frequência.

Isso ilustra o fato de que nós pouco podemos fazer sozinhos. Não importa quanto conhecimento e experiência mateira nós tenhamos, nosso sucesso em nos manter vivos em tais situações de longos períodos é limitado. Basta ficar doente e precisar da ajuda de terceiros ou tratamento médico e pronto. Todas as ilusões caem por terra.

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Imagine ter de realizar as tarefas mais básicas como pegar lenha para o fogo, fazer fogueiras, construir ou consertar abrigos, coletar e tratar água, obter alimentos, deslocar por um terreno acidentado, entre outras coisas, estando doente ou ferido. E a possibilidade de isso acontecer em ambientes hostis é enorme. Muito dificilmente, qualquer pessoa que esteja com cortes ou fraturas infeccionadas, ou que esteja enferma, com dor ou enfraquecida, conseguiria dar conta de todos os aspectos fundamentais para manter-se vivo no mato.

Os registros arqueológicos novamente nos apresentam um caso em que verificamos a importância do grupo na sobrevivência individual em tempos de enfermidades. Em meio às ossadas de um grupo de Homo erectus, havia um indivíduo cujas marcas na mandíbula indicavam que ele havia sofrido uma forte infecção na boca.

Apesar do problema, o indivíduo conseguiu sobreviver pois havia sinais de cicatrização e recuperação. Mas para que ele pudesse vencer a doença, ele foi cuidado e alimentado com comida mastigada por outros, uma vez que era incapaz de fazer tal movimento. Ou seja, se não fosse pelos cuidados de seu clã, ele teria padecido por causa de sua enfermidade muito antes. E isso nos serve de ensinamento hoje em dia.

Pensarmos em autossuficiência em ambientes naturais hostis, estando completamente só, por um longo tempo continua sendo apenas uma fantasia de criança.


Preparação é indispensável

Na maior parte das vezes, o indivíduo terá muito pouco controle dos fatores envolvidos num cenário de sobrevivência em ambientes naturais hostis. Assim sendo, a preparação se torna uma ferramenta preciosa. É ela que vai possibilitar maior ou menor domínio do ambiente e suas adversidades. Isso significa entrar no mato com itens que vão poupar tempo e calorias e que te deixam mais independente dos recursos ou condições naturais que podem não estar favoráveis ou disponíveis em um momento crucial.

Devemos entender que a natureza não está contra nem a favor de nós. Ela é neutra e tem suas regras. Os indivíduos que encaram a natureza como um “inimigo a ser vencido”, assumem uma posição arrogante e perigosa para si próprios, enquanto deveriam poupar energia para se adaptar e se ajustar às condições impostas pelo ambiente.

Para ajudar a melhorar nossas chances de superar os desafios do ambiente devemos sempre carregar um kit de sobrevivência moderno. Quando abordo esse tema em meus artigos ou vídeos, sempre aparecem comentários de pessoas insatisfeitas dizendo que eu deveria ensiná-las a fazer fogo com fricção, filtrar água com a camiseta, etc. Mas essa lógica está completamente equivocada.

Quando você acumula experiência em ambientes naturais hostis, sobretudo nos biomas do Brasil, você percebe justamente a dificuldade que é ter de se virar fazendo fogo por fricção ou na falta de água potável. A realidade nos ensina que existe uma série de variáveis que podem impedir que consigamos, por exemplo, produzir fogo. A técnica depende do posicionamento do seu corpo, do tipo de madeira certa, da umidade do ambiente e do material, entre outras coisas. Tantas limitações só me fazem dar mais valor a um isqueiro à gás simples.

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Não há uma justificativa moderna sequer para uma pessoa não ter um isqueiro do tipo Bic, consigo. Ele é leve, não ocupa espaço no bolso, é barato e até pode ser levado a bordo de vários aviões comerciais (falo por experiência própria), ônibus, trens, etc. Muitos já padeceram no passado por não terem a garantia de uma chama tão rápida, em tão pouco tempo e sem nenhum esforço físico, além do movimento do polegar.

As técnicas primitivas, de bushcraft, ou seja lá como preferirem chamá-las, não devem ser sua principal opção. Elas devem representar um último recurso, ou um plano “Z”, apenas no caso de não ter à disposição os recursos contemporâneos. O planejamento de situações de sobrevivência deve ser feito com maturidade e seriedade, entendendo sua realidade, o local e o momento em que se encontra. Seu preparo tem de ser sólido, uma vez que sua improvisação nunca será! Não se planeja improvisar.

Negligenciar tal realidade é agir de forma, no mínimo, irresponsável e arrogante. Dois aspectos que combinados geralmente levam a tragédias.


Inversão de prioridades

Além de subestimar a necessidade de preparação e desprezarem a utilidade de um kit de sobrevivência moderno, outro erro que geralmente cometemos é supervalorizar o condicionamento físico.

Mesmo com o passar dos anos, não é raro encontrar gente com pouca experiência ou conhecimento das prioridades em situações de risco. Pessoas estas que confiam excessivamente na sua habilidade física, capacidade de corrida ou no condicionamento em geral.

Reforçada por certas abordagens vistas na TV, essa mentalidade acaba por enfatizar ou sobrevalorizar um aspecto que, apesar de sua importância, não seria capaz de salvar ninguém na maioria dos cenários plausíveis que podemos levantar. Há tantos outros vetores em atuação que o resultado ser determinado apenas por um único fator é praticamente impossível. Uma decisão errada, uma curva ou virada na trilha despercebida, um abrigo mal escolhido, um descuido com seu equipamento e, adeus, ser forte ou ser rápido vai significar muito pouco pra você.

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Sobre alguns desses aspectos podemos ter um grau maior ou menor de controle, sobretudo se tivermos recursos disponíveis para atenuarem os efeitos e demandas desses cenários – como a preparação de emergência já mencionada. Ou seja, há coisas que controlamos e dependem de nossa resposta pessoal e há outros aspectos sobre os quais não temos controle algum e nada ou quase nada podemos fazer para interferir.

Assim sendo, se tivermos que avaliar a importância de qualquer tipo de condicionamento que pudermos ter para tais situações de emergência, nós devemos valorizar mais o condicionamento mental (ou preparo psicológico) relevante na hora de enfrentar situações de grande stress, do que o número de flexões que alguém pode fazer ou quantos quilômetros a pessoa é capaz de correr.


Aquilo que mais importa

Nós já nascemos equipados com a ferramenta mais importante para nosso sucesso em situações de sobrevivência: nosso cérebro. Ao percebermos a importância da atitude mental para enfrentarmos os desafios impostos pela sobrevivência humana em ambientes naturais hostis, poderemos compreender e trabalhar mais claramente os aspectos gerais da nossa resposta para tais situações de risco.

No que tange aos aspectos da sobrevivência (vetores) sobre os quais alguém tem controle, destacamos nessa ordem o eixo de resposta pessoal com os elementos atuantes: aspecto psicológico, conhecimento (técnico e prático), equipamentos, e preparo físico.

A nossa interferência e resposta para situações de sobrevivência dependerá exclusivamente desses quatro elementos, mas há uma importância muito grande em se perceber a participação e relevância de cada um deles no eixo de resposta pessoal.

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Hoje sabemos que 90% do sucesso de um indivíduo em uma situação adversa são determinados por sua capacidade mental de lidar com todos os aspectos e como ele responde a tais situações. Todos seus conhecimentos técnicos e práticos relacionados à situações de sobrevivência ou aos recursos modernos disponíveis estarão sujeitos ao seu autocontrole para tomar as decisões certas e agir da melhor forma possível.

Na maioria dos casos a capacidade de resiliência, persistência e perseverança, além de uma atitude positiva e proativa, possuem um papel muito mais relevante para o sucesso do sobrevivente que seu condicionamento físico ou quão bom e moderno seu equipamento é.

É na mente que está o segredo do sucesso do sobrevivente. O jogo é ganho ou perdido lá. Não importa o quão ruim a situação possa parecer externamente. Quando ouvimos que na natureza os mais fortes sobrevivem, associamos tal força ao vigor físico, mas esta batalha se dá em outra camada.

Até porque, como dissemos, não adianta lutar contra a natureza. Tal batalha já está perdida pra nós. É por isso que moramos em ambientes urbanos modernos sobre os quais temos muito mais controle. Uma vez na natureza, aprendemos que é ela quem manda e as coisas são como são. E foi justamente essa nossa capacidade de “dançar conforme a música” que possibilitou sairmos da África e habitarmos outras áreas inóspitas e perigosas do planeta.

Acreditar que agora somos capazes de enfrentar sozinhos qualquer adversidade imposta pela natureza é abrir mão do que a evolução nos deu de melhor: a inteligência.

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