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O Bushcraft e a reconexão com a natureza – Parte 1

dezembro 1, 2021
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Tempo de leitura 13 min
Descubra como a conexão com a natureza pode trazer diversos benefícios para o ser humano.

Nos dias de hoje, temos o conhecimento sobre as várias doenças que afligem a humanidade e que são frutos diretos da ausência de contato com o ambiente natural. Altos índices de stress, depressão e até suicídios se dão por conta de um acúmulo constante da pressão do dia a dia das grandes cidades. Nem as crianças estão imunes à tal afastamento do mundo natural. Algumas, possivelmente, estão tão afastadas da natureza, que sequer sabem que uma cenoura ou beterraba são raízes e que vêm de dentro da terra. Outras tantas sofrem de um quadro conhecido como Transtorno de Déficit de Natureza. Elas nunca pisaram na terra ou na grama ou sequer viram animais livres no ambiente natural. Sendo assim, percebemos que um número cada vez maior dessas crianças, jovens e adultos estão, de fato, doentes por estarem tão profundamente afastados do contato com o mundo natural.

Alívio natural

Diante deste cenário nota-se uma crescente tendência entre as pessoas, principalmente aqueles que vivem nos grandes centros urbanos, de buscarem uma forma de se reaproximarem da natureza em busca de paz e alívio, além de momentos de relaxamento e lazer. Uma boa parte desses indivíduos busca tal reaproximação do mundo natural, como uma maneira de deixar para trás as tensões diárias que se acumulam sobre eles. Essa procura por mais qualidade de vida junto à natureza pode se dar de inúmeras formas: acampamentos, trilhas com passeios e caminhadas em matas, visitas à rios, cachoeiras ou mesmo aproveitando a costa e o mar.

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Há, obviamente, pessoas que também desenvolvem atividades de lazer que têm a natureza como “pano de fundo”; mas cuja prática em nada se relaciona com uma reaproximação ou interação saudável para o ser humano e principalmente para a natureza local onde tais atividades ocorrem. Podemos citar certas atividades como enduros de motocicletas, trilhas com veículos 4×4, entre outras; que além de degradarem o lugar com erosão, poluição sonora, visual e do ar, acabam, também, por afastar boa parte da fauna, ameaçando o que resta dela. Não há, nesse tipo de atividade degradante, qualquer benefício para o meio ambiente.

Contudo, para aqueles que buscam um relacionamento sadio com o mundo natural, com benefícios mútuos entre o ser humano e a natureza, a prática do Bushcraft oferece a possibilidade para que tal interação ocorra de forma harmoniosa.

O termo Bushcraft tem ficado cada vez mais conhecido entre as pessoas, boa parte em função de programas de televisão e canais de aventura ou mesmo na internet, através do YouTube, onde os telespectadores e seguidores acabam por se familiarizar um pouco com todo esse universo.

Neste post pretendo abordar o Bushcraft de forma a ampliarmos nosso olhar e entendimento sobre o termo, a sua prática.


O que é Bushcraft?

Para aqueles que ainda não sabem do que o termo Bushcraft se trata, podemos traduzi-lo, de uma forma mais livre, como “artes do mato” ou “artes mateiras”. De uma forma bem ampla, pode-se afirmar que o conhecimento de Bushcraft perpassa inúmeras áreas e escopos da atividade humana. Desde campos da ciência, como arqueologia, biologia, geologia, entre outras, até o conhecimento prático e local de populações indígenas, ribeirinhas e do meio rural. Enfim, Bushcraft (ou as “artes do mato”) é algo que está diretamente relacionado à todos aqueles que interagem com o mundo natural e que agregam toda a gama de experiências e conhecimento derivados de tal relacionamento.

Com todas essas formas distintas de obtermos conhecimentos e experiências de cunho natural, se torna desejável um norteador dos conceitos e termos aqui utilizados.


Onde surgiu o termo Bushcraft?

O tema relacionado ao Bushcraft era bastante comum no cotidiano das pessoas de gerações antigas. A maioria delas residia em áreas rurais, longe de centros urbanos, e dependia deste conhecimento para a manutenção de suas vidas diárias. No entanto, sequer havia um nome ou termo para esse tipo de conhecimento e ele era parte natural do dia-a-dia de todos.

Portanto, existem vários autores como Horace Kephart, Elmer Harry Kreps, George Washington Sears “Nessmuk” e Henry David Thoureau que trataram do tema; sem usarem a palavra Bushcraft, em si, mas cujas obras estão completamente imersas em todo este universo.

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Contudo, se buscarmos a origem do termo Bushcraft propriamente dito, chegaremos à autores do final do século XIX, em um contexto australiano. Ainda no século XX, outros autores como Les Hiddins Mors Kochenski começaram a utilizar e tornar mais comum o termo Bushcraft. Porém, em certos lugares, como nos EUA, o termo woodcraft ainda era mais comumente utilizado durante aquele século.

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Entretanto, na década de 1990, um homem foi responsável pela popularização daquilo que conhecemos atualmente como Bushcraft.


Um nome de peso

Com todo o respeito e honras que os pioneiros da área merecem, há entre eles um que foi, possivelmente, o principal difusor daquilo que percebemos como Bushcraft hoje. Naturalmente me refiro ao inglês Ray Mears.

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Autor de inúmeros livros e artigos na área, essa lenda mateira também é apresentador de programas ligados ao tema e é alguém que tem dedicado uma boa parte de sua vida à esta forma de se relacionar com a natureza.

Segundo Ray Mears, o Bushcraft se trata do “conhecimento e o entendimento do mundo natural” e esse conceito lhe foi transmitido por uma mulher aborígene da Austrália durante suas incursões e vivências com aquela população.

Tal conhecimento e entendimento relacionados ao mundo natural só poderão ser alcançados através de um relacionamento progressivo, ao longo do tempo, entre o ser humano e a natureza. Chamamos isso de relacionamento porque tal atividade deverá impactar de forma positiva tanto o aspecto relacionado ao contexto humano quanto o contexto do mundo natural, trazendo, assim, consequências benéficas para ambos.

Para ilustrarmos melhor a maneira pela qual a relação humana para com a natureza ocorre dentro do Bushcraft, podemos utilizar o conceito do triângulo, que traduz bem tal definição:

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O ápice do triângulo – A reconexão com a natureza

O ápice do triângulo é o mais importante e está relacionado à reconexão mais profunda com a natureza. Isso implica em conhecermos a fauna e a flora locais, os ciclos das estações e a maneira intrínseca e equilibrada em que tais relações são construídas. Por exemplo, saber reconhecer os cantos dos pássaros e o que eles significam (acasalamento, etc.), os insetos e a forma como interagem no ambiente, sabendo, inclusive, identificar aqueles que são perigosos e/ou que podem ser usados como alimentos. Há mateiros e indígenas que são capazes de prever uma tempestade ou chuva com 30 minutos de antecedência, simplesmente observando as formigas cortadeiras abandonarem suas tarefas e procurarem abrigo. Supõe se que elas, possivelmente, percebem a mudança na pressão atmosférica, o que as alerta para a chuva.

Conhecer a plantas e as suas floradas, bem como seus usos terapêuticos e alimentícios, e saber quais delas oferecem recursos que podem ser utilizados e trabalhados é parte de tal conhecimento ancestral. Há, além disso, uma infinidade de itens confeccionados e utilizados para a manutenção não apenas da vida, do ponto de vista da sobrevivência, mas que se estende para aspectos culturais, sociais e práticos do cotidiano, indo muito além da sobrevivência em si. São tantas as formas em que tal relação se dá que poderíamos escrever outro artigo, apenas focando neste ponto.

Podemos afirmar que essa é a finalidade maior do Bushcraft: permitir que as pessoas se reaproximem novamente do mundo natural, levando-as a recuperarem um tipo de conhecimento que já foi trivial para nossos antepassados, mas que tem sido esquecido e negligenciado pelas gerações mais recentes, que se afastaram tanto da natureza a ponto de criarem um verdadeiro divórcio entre ela e o ser humano.

Em última instância, isso tudo está muito relacionado com a habilidade de olharmos para uma mata e não enxergarmos apenas uma malha verde disforme, mas sim, reconhecermos indivíduos e espécies que habitam aquele lugar.


Contemplação – A arte de não fazer nada

É comum as pessoas associarem o termo ou a prática do Bushcraft às inúmeras técnicas e equipamentos utilizados em todo o mundo por seus praticantes. Formas de produzir fogo e abrigos, equipamentos como facas, mochilas entre outros utensílios mateiros são, sem dúvida alguma, aspectos muito importantes para os praticantes de Bushcraft, pois eles vão oferecer meios para estarmos junto à natureza por períodos de tempo, buscando a reconexão.

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Porém, o termo Bushcraft remete a mais do que simplesmente produzir coisas como cordas, fogo e outros objetos. O sufixo inglês –craft e a palavra “artes” podem, igualmente, se referirem à um aspecto mais filosófico, espiritual ou transcendente e tudo isso, também, pode ser derivado de uma interação mais profunda com o “mato”.

Sendo assim, uma das formas mais simples, eficientes e importantes de alcançarmos essa imersão no mundo natural está relacionada com a atividade da contemplação, que a princípio, implica em não produzir ou fazer nada. Não há que se criar fogueiras, cordas, abrigos ou quaisquer outros utensílios.

Tal atividade pode parecer ou soar para muitas pessoas, à princípio, como algo complicado de entender e absorver sua importância por diversas razões. Uma delas é, possivelmente, o fato de sermos cobrados diariamente para produzirmos algum tipo de bem ou valor, dada a própria natureza econômica da sociedade contemporânea em que vivemos. Estamos acostumados a trabalhar e fazer coisas o tempo todo, para nós mesmos ou para as outras pessoas.

A impaciência decorrente do estilo de vida atual mencionado é outro aspecto que está relacionado com a dificuldade das pessoas em se dedicarem à contemplação, pois ela atrapalha e dificulta longos períodos “ociosos”, que requerem apenas paciência para ficarmos assentados “sem fazer nada”, apenas observando, ouvindo, sentindo cheiros, aromas, em estado contemplativo.

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Tudo que é necessário para a realização de tal atividade é encontrar um local tranquilo, o mais longe possível da interferência e presença humana, onde se possa observar a natureza sem chamar atenção para si.

Para tal, devemos buscar uma área em que possamos assentar, de preferência junto à uma sombra (para evitarmos o desconforto do calor do sol), com roupas de cores que se misturem ao ambiente, evitando, também barulho e sons altos, cheiros fortes e fumaça, além de movimentos e agitações que possam afastar a vida selvagem local.

Tais cuidados deverão proporcionar momentos ímpares de prazer e satisfação, na medida em que começamos a perceber a dinâmica presente entre a fauna e a flora naquele local. Perceberemos como os pássaros interagem entre si, como são seus cantos em certas horas do dia, os locais onde animais comem, dormem ou passam para beberem água e a que hora do dia o fazem. Veremos, por exemplo, como insetos e outros bichos se relacionam com as inúmeras plantas, árvores, arbustos e flores que estão presentes nas diversas estações e épocas do ano. As abelhas que buscam nas floradas para produzirem seu mel ou as borboletas que pousaram sobre nossos corpos para sorverem o sal de nosso suor. Ouviremos e sentiremos todo o alvoroço das matas nas primeiras horas do dia, o que se contrapõe à quietude das noites e das madrugadas, onde uma nova gama de sons e atividades da fauna noturna está em andamento.

É principalmente através da atividade de contemplação que vamos nos familiarizar com as áreas que frequentamos, a ponto de estarmos tão acostumados com sua dinâmica, que perceberemos quaisquer mudanças sutis, o que não ocorre com aqueles que não possuem tal familiaridade. Lembro-me em algumas ocasiões em que percebi sons diferentes ou comportamentos incomuns de insetos, que denunciaram certas ocorrências no local. Uma vez, já tinha me deitado na rede e pouco antes de pegar no sono, ouvi sons como pequenos estalos. Eu me lembro de ter levantado para checar sua origem e me deparei com uma correição de formigas que cortavam toda a vegetação próxima, produzindo assim um som característico, bem perceptível à noite.

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Outra vez, observei o comportamento de vários tipos de insetos correndo, ou melhor, fugindo em uma mesma direção. O deslocamento repentino se dava por conta de uma correição de formigas que não poupavam nenhum ser que tivesse pernas e permanecesse na área. Nem mesmo pouparam uma aranha-armadeira, que vi ser desalojada de seu buraco no chão enquanto tentava inutilmente se livrar de suas atacantes. Já os micos, com seus filhotes agarrados as costas ou ao peito, são uma presença constante e divertida no acampamento. Vez ou outra, curiosos, se aproximam para ver a atividade dos mateiros do local.

Já pude observar inúmeros pássaros, que, uma vez tendo esquecido minha presença lá, pousavam próximo à mim e vinham ciscar um lanchinho rápido entre as folhas e pequenos insetos no chão.

Existem artistas que retiram da natureza, a inspiração para suas obras, como uma sueca que obtém do som dos ventos entre as copas das árvores e nas montanhas, a inspiração para linhas melódicas que ela cria e que estão em sintonia com o ambiente por ela frequentado. Outros são inspirados pelas paisagens que veem, para produzir pinturas em telas e em objetos que criam. Tudo isso ocorre em função de momentos passados junto à natureza, absorvendo elementos que estão presentes lá.

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Mont Sainte-Victoire, óleo sobre tela. Paul Cézanne,1904–1906. Pintura inspirada pela Montanha Sainte-Victoire.

Como já mencionei anteriormente, uma vez que conseguimos a capacidade de olharmos para uma floresta e não avistarmos apenas um emaranhado de plantas e vegetação, mas sim um sistema dinâmico e vivo, com seres vivos que interagem entre si e que também nos oferecem recursos e benefícios inúmeros, estaremos igualmente propensos a proteger e a conservar tais locais, com respeito e reverência por tudo que se encontra ali. Desde os rios e montanhas, até os seres vivos de lá, sejam eles plantas ou animais.

Para os seres humanos, ficam os benefícios físicos e psicológicos decorridos dessa interação. E uma vez que ela ocorra, nós estaremos mais propensos a protegermos e preservarmos esses ambientes, defendendo-os tal como faríamos com entes humanos queridos. E essa é a nossa contrapartida para a natureza, pelas dádivas que recebemos dela.

Ray Mears nos dá um conselho bastante pertinente para a realização desta atividade. Em um de seus programas da BBC, ele recomenda: “Se assente sossegado, observe bastante e permaneça quieto”.

Fique ligado no Portal Crosster para ler a continuação deste artigo!

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