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Bushcraft: a realidade no Brasil x Reino Unido

janeiro 16, 2022
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Tempo de leitura 14 min
Este artigo foi inicialmente publicado na edição 87 da revista inglesa The Bushcraft & Survival Skills, em dezembro de 2020.

Já se passaram pouco mais de dez anos desde que os brasileiros ouviram pela primeira vez a palavra bushcraft no YouTube e começaram a desenvolver as primeiras noções daquilo que é geralmente entendido e transmitido por essa expressão recém-adotada. Esta palavra em inglês, automaticamente alçada a um status maior, está lentamente quebrando velhas noções depreciativas que foram amplamente associadas às “artes do mato”, como comumente nos referimos ao bushcraft hoje em dia, neste país.

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The Bushcraft Show. O maior evento de Bushcraft do mundo, realizado no Reino Unido. Foto: Reprodução/The Bushcraft Show

Ao contrário do Brasil, bushcraft é um termo bastante familiar para a maioria das pessoas no Reino Unido, que têm uma boa noção daquilo com que ele se relaciona. Isso ficou muito claro para mim, por várias vezes, durante minha visita de 10 dias ao país. Por exemplo, passando pela imigração, no aeroporto de Heathrow fui questionado acerca do propósito de minha visita. Mencionar o The Bushcraft Show (o maior evento do gênero no planeta e que iríamos visitar) deu início a uma curta conversa com os oficiais da imigração, que já estavam bastante familiarizados com o bushcraft e alguns dos maiores nomes do Reino Unido. Foi a mesma história em lugares na costa da Inglaterra, como Winchester, bem ao sul, ou cidades menores mais ao norte, ou, ainda, na parte central do país.

No The Bushcraft Show 2019, presenciei um encontro que, até então, só poderia acontecer em um sonho aqui no Brasil. Principalmente em termos do apelo que um evento de tal porte possui para pessoas de todas as idades e estilos de vida e que estavam lá. Famílias, crianças, pais e idosos mostraram uma verdadeira afinidade e amor pelo mato e tudo relacionado à experiência da arte mateira, e que os levou até lá para aumentarem sua percepção e compreensão do mundo natural. O desejo comum entre os visitantes de tal evento não é apenas preservar as tradições e habilidades mateiras históricas, mas, em última análise, se reconectar com a natureza.

Esta percepção positiva do bushcraft no Reino Unido é um forte contraste com a percepção comum do bushcraft aqui no Brasil e na América do Sul em geral. Em nosso país, ainda lutamos para preservar nossa cultura tradicional do mato diante do ridículo e do mal-entendido. Em vez de serem consideradas uma riqueza cultural ou um conjunto de habilidades e conhecimentos “capacitadores”, as técnicas de bushcraft são comumente reputadas como evidência de pobreza e até miséria por uma grande parte da população. Como a primeira pessoa que introduziu o termo bushcraft para os brasileiros, além de ministrar cursos nesta área e de sobrevivência em ambientes naturais hostis por mais de 10 anos na Escola Mestre do Mato, eu poderia preencher dezenas de páginas com exemplos dessa triste realidade.

As raízes de tal preconceito remontam a meados do século XX, quando as populações rurais começaram a se deslocar para os grandes centros urbanizados, deixando aos poucos sua herança rural, junto com o conhecimento derivado da mata. No Brasil, até hoje, é comum a noção de que o bacana e “descolado” é viver e se adaptar à vida das grandes cidades e suas tendências chamativas. Quem vive no meio rural não goza do mesmo status ou prestígio de quem “conseguiu vencer” na cidade grande. O homem comum do campo é considerado, muitas vezes, motivo de chacota, a exemplo do “Jeca Tatu”, conhecido personagem cômico brasileiro de meados do século XX. Eles estereotipam a população rural como gente descalça, pobre, ignorante, sem higiene adequada e sem nenhuma educação formal.

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Ilustração de Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato. Kurt Wiese (b. 1887 – d. 1974), Domínio Público, via Wikimedia Commons

O fato de alguém fazer fogo por métodos não convencionais, usar plantas silvestres como alimento ou remédio, colher insetos comestíveis ou construir uma casa com materiais naturais é considerado evidência de que essa pessoa vive em uma miséria socioeconômica tão grande, que ela não pode pagar por meios modernos para atender às suas necessidades. Eles são forçados pela pobreza a ir para o mato para obter aquilo de que precisam para viver. Infelizmente, essa é a realidade de uma parcela significativa da população brasileira considerada “economicamente inativa” e que de fato depende desse conhecimento para conseguir simplesmente sobreviver. Para eles, tais habilidades não são uma forma de se reconectar com a natureza ou vivenciar um estilo de vida exótico ou alternativo, mas a única forma de continuara viver e sustentar suas famílias. Sendo assim, não é surpresa que o conceito de pobreza esteja tão profundamente conectado ao conhecimento e compreensão de como sobreviver no mato.

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Mochila Roycroft: uma excelente lição em autossuficiência, sobrevivência, uso de materiais naturais e aproveitamento de recursos. Imagem: Reprodução/Primitive Ways

Essa triste distorção e incompreensão sobre a verdadeira riqueza presente nas artes do mato tornou-se evidente para mim um dia, pelas palavras de um jovem casal que encontrei. Eu tinha acabado de fazer um curso de bushcraft em um local e tinha nas costas uma armação de madeira com um saco de juta, conhecida como mochila “Roycroft”. Enquanto eu caminhava pelo estacionamento, a jovem comentou sobre minha mochila e perguntou ao seu amigo se ele poderia fazer uma mochila como a que eu usava, e ele respondeu: “porque eu faria isso? Tenho dinheiro para comprar uma mochila de verdade”! Suas palavras queimaram em minha mente por algum tempo enquanto eu tentava entender a mentalidade por trás delas. Para ele, a única razão pela qual alguém confeccionaria qualquer coisa assim para si é porque tal pessoa não poderia comprar um item industrializado equivalente.

E então eu me pergunto: por quê é tão difícil para certas pessoas entenderem que a habilidade de criar itens como aquele, nada tem a ver com pobreza e que isso significa exatamente o contrário? Como fazê-los entender que, na verdade, tal conhecimento e compreensão do mundo natural te enriquecem, se você tiver o conhecimento para andar no mato com uma faca e mais alguns poucos itens e fabricar para si mesmo aquilo que você precisa, apesar do fato de que você pode comprar qualquer produto vendido em lojas, shoppings ou pela internet?

Há ainda outro exemplo que ilustra bem toda essa mentalidade existente no Brasil. David McIntyre foi um missionário americano aqui no país por 15 anos. Durante esse tempo ele fundou o ministério do “mato” chamado Per Ardua. Ele utilizava treinamento de sobrevivência na selva como uma ferramenta para o desenvolvimento de liderança entre os jovens de sua igreja. O Mac (como é conhecido aqui) também trabalhou comigo em minha escola do mato por vários anos como um instrutor de sobrevivência e de bushcraft e foi selecionado para participar da segunda temporada do reality show Alone, do The History Channel, tendo vencido tal desafio daquela temporada.  Ao chegar no Brasil, Mac sofreu o que chamamos de “choque cultural”. Ele descobriu aqui essa mentalidade, ainda no início de sua carreira, quando uma mulher de classe média alta de sua igreja o chamou e lhe perguntou: “Pastor Mac, por que você faz essa coisa de mendigo no mato? Por que você finge não ser um homem de posses e passa o tempo vivendo como um sem-teto?” Para ela, uma pessoa só faz essas coisas ou passa algum tempo no mato se tal indivíduo for um verdadeiro pária em nossa sociedade. Para tal senhora, as ações dele estavam vergonhosamente abaixo de seu status social.

Em outra ocasião, durante a construção de sua nova casa, os trabalhadores encontraram um ninho de formigas “tanajuras” que foram e ainda são utilizadas como alimentação no Brasil. Ele os ouviu conversando sobre como prepará-las e comê-las. Por causa de seu interesse no assunto, o Mac entrou na conversa, ansioso para aprender essa antiga tradição culinária do país. Porém, todos os trabalhadores se afastaram e voltaram ao trabalho, visivelmente desconfortáveis com sua curiosidade. Ele inocentemente havia esbarrado no abismo econômico do país e acabou expondo o estigma carregado por aqueles que coletam alimentos silvestres por necessidade. As pessoas que trabalhavam em sua casa tinham vergonha desse belo conhecimento porque acreditavam, erroneamente, que tal conhecimento não possuía qualquer valor ou lugar em nossa sociedade moderna.

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Formiga tanajura (içá). Foto: Reprodução/Vanessa Bracamonte, via Folha de Pernambuco

Apesar desta triste realidade e exemplos de partir o coração de toda essa perda cultural, ainda há esperança para a gente, uma vez que uma luz brilha no final deste túnel. Versões brasileiras de programas de sobrevivência na TV estão ganhando popularidade entre a população urbana. Isso gerou um número crescente de canais no YouTube dedicados ao conteúdo do bushcraft aqui no Brasil e aos poucos, a percepção do verdadeiro valor do conhecimento do mato está mudando, na medida que as pessoas dos grandes centros urbanos percebem que o preço que elas pagam por estarem tão desconectadas do mundo natural é muito alto. Desta forma, elas acabam buscando uma abordagem mais saudável para suas vidas, voltando-se para a natureza.

O termo “Bushcraft”, pelo menos no Brasil, é uma palavra estrangeira chique, para algo que tem feito parte do cotidiano de brasileiros da zona rural e de indígenas ao longo de nossa história. Isso tem ajudado as pessoas a perceber o potencial deste país em termos dos cinco diferentes biomas aqui presentes e que pulsam com toda nossa biodiversidade. Como Ray Mears observou certa vez, longe de prejudicar a natureza, o crescente conhecimento do bushcraft é essencial para preservar o mundo natural. Reconectar brasileiros urbanos com a natureza, educando-os sobre suas próprias plantas e animais selvagens e mostrar as habilidades incrivelmente sofisticadas de povos “primitivos” está fazendo com que os brasileiros se apaixonem por seu país, gerando, assim, uma vontade de preservar e defender nosso patrimônio natural.

Até o momento, o Brasil realizou dois grandes eventos nacionais de bushcraft, sem fins lucrativos. Eles reuniram um número surpreendentemente grande de visitantes, expositores e palestrantes, agrupando famílias e pessoas de todas as classes sociais. Estamos construindo um futuro onde as pessoas aqui possam compreender as bênçãos, não apenas das habilidades de bushcraft, mas também das experiências e benefícios de se conectarem mais profundamente com a natureza.

Essas conexões não apenas com o mundo natural, mas com toda uma série de antigas tradições do mato de nosso país, foram cruciais para plantar cedo na minha vida as sementes daquilo que faço atualmente.

Eu nasci em Ouro Preto, cidade mineira fundada nos anos de 1700 pelos bandeirantes, durante nossa primeira corrida do ouro. Juntamente com os contos das populações indígenas que dominavam boa parte das terras, eu cresci cercado pela história dos primeiros desbravadores e suas grandes expedições pela paisagem do sertão rochoso de Minas Gerais.

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Ouro Preto, Minas Gerais.

Porém, para mim é difícil precisar o momento em que o bushcraft entrou na minha vida, já que ele sempre esteve presente de tantas maneiras diferentes e sutis na própria história do lugar onde nasci. Por exemplo, documentos históricos oficiais de Ouro Preto falam que durante a corrida do ouro houve uma grande fome que levou à caça e a morte de todos os seres vivos que podiam ser usados como alimento, a ponto de não se ouvir nem mesmo um passarinho cantando por lá. Como a geografia da cidade não permite o cultivo de grandes plantações, alimentos e suprimentos em geral tiveram de ser trazidos por mercadores e tropeiros que simplesmente não conseguiam atender à enorme demanda da cidade. Isso se deu devido ao grande número da população naquele período que, para evitar a fome em massa, se voltou para os povos indígenas e seus conhecimentos numa tentativa de aprenderem quais plantas e recursos naturais estavam disponíveis para melhorar sua pobre dieta. Esse conhecimento acerca de plantas comestíveis locais ajudou a moldar a identidade da gastronomia mineira tradicional, dando-lhe um toque e sabor original.

Posteriormente, quando terminei a faculdade em 2001, eu pude passar mais tempo no mato aqui. Minas Gerais possui três dos cinco principais biomas brasileiros. São eles a Mata Atlântica, o Cerrado e um pouco da caatinga, no norte de estado. Isso me permitiu desenvolver diferentes habilidades derivadas de cenários bem distintos. Quanto mais tempo eu passava nesses ambientes naturais, mais eu queria estar lá e aprender sobre todos os seus tesouros escondidos.

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Vegetação do Estado de Minas Gerais, via Governo do Estado de Minas Gerais.

Em 2008, depois de ter adquirido alguma experiência local considerável em termos do que hoje nós chamamos de bushcraft e autossuficiência no mato, eu decidi começar minha própria escola mateira, dando aulas de sobrevivência. Foi mais ou menos na mesma época que me deparei com o termo bushcraft no YouTube e descobri uma multidão de pessoas de todo o mundo que compartilhavam a mesma paixão e amor pelo mato que eu. Nesse mesmo ano criei meu próprio canal no YouTube onde comecei a postar vídeos sobre sobrevivência e bushcraft, lançando assim as primeiras noções veiculadas pelo novo termo. Nesse ínterim, eu estava tentando relacionar tudo isso com aquilo que estava sendo feito no exterior para ajudar a quebrar o estigma existente aqui em torno das artes do mato, mostrando às pessoas no Brasil como essas habilidades são amplamente apreciadas em outros países.

Isso também ajudou a inspirar outras pessoas no Brasil a abrirem seus próprios canais e compartilharem suas próprias experiências mateiras. O número crescente de conteúdo na web sobre o bushcraft em nosso país demonstra o potencial e o apelo que a atividade está ganhando entre os brasileiros, especialmente os das áreas urbanizadas.

Além de ministrar cursos e treinamentos bilíngues para brasileiros e estrangeiros, minha escola do mato tem participado de ações socioeducativas, levando o conhecimento do bushcraft de forma gratuita para crianças de áreas pobres de Belo Horizonte. Isso os impactou de uma maneira muito positiva, não só por aproximá-los da natureza e da compreensão dela derivada, mas também por ajudar a dar um exemplo que não fosse a influência local que aquelas crianças sofrem devido ao ambiente pobre e violento em que muitos vivem.

Também tivemos a oportunidade de ministrar palestras e realizar demonstrações de técnicas pré-históricas para crianças das classes média e média alta através de uma parceria com o Museu Arqueológico e História Natural da Universidade Federal de Minas Gerais.

Agora, olhando para trás, após esses 13 anos, percebo que percorremos um longo caminho desde os primeiros dias do meu canal no YouTube. Hoje em dia, eu vejo todo o bom conteúdo sendo produzido aqui por tantas pessoas incríveis, homens e mulheres, que dedicam seu tempo e energia para aprimorar a prática das artes do mato, que é como nos referimos ao bushcraft neste país.

Neste ponto, não posso deixar de me sentir como aquela única semente que encontrou um bom terreno e se multiplicou às centenas e milhares. Isso é algo que certamente terei orgulho para sempre!

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4 Comentários

  • Responder Arthur janeiro 18, 2022 at 11:17 am

    Rapaz, eu sou um dos muitos fãs do trabalho do Giuliano Tonilo, e o que ele explanou sobre esse preconceito que de certa forma os praticantes de bushcraft passam devido a acaharem que é coisa de jeca tatu ou de gente que ta ali por que nao tem o que comer em casa(apesar de ter pessoas que usam do bushcraft para sua substencia), tem de acabar e os canais nao só de bushcraft como outras atividades outdoor estão ai pra isso.

    • Responder Crosster janeiro 18, 2022 at 1:04 pm

      Com certeza Arthur!, essa sabedoria e esses conhecimentos não só podem ser muito úteis como também uma forma de lazer e são nossa cultura e precisam ser preservados!

  • Responder Chyark janeiro 22, 2022 at 8:51 pm

    Parabéns! Giuliano pelo o artigo e Crosster por nós dar a honra de ter a presença do Mestre do Mato, aqui no portal transmitindo esse conhecimento riquíssimo!

    • Responder Crosster janeiro 24, 2022 at 8:44 am

      Obrigado pela mensagem Chyark. Vamos retransmitir ela para o Giuliano! 👍

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